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ATENÇÃO: ESTE LIVRO, FEITO POR NUTRICIONISTA, CONTÉM RECEITAS COM AÇÚCAR

Esta semana recebi o email de duas colegas nutricionistas fazendo uma série de críticas negativas ao livro Lugar de Criança é na Cozinha. Obviamente eu fiquei bastante chateada, afinal sempre é ruim ouvir críticas, mas apesar da chateação, elas me fizeram refletir muito e me inspiraram escrever este post.

Antes de enfrentar a empreitada de publicar e bancar a impressão de 1.000 cópias de forma independente, eu fiz uma tiragem pequena e dei o livro para profissionais conceituados e que tenho grande admiração para eles o avaliarem. Dessa primeira análise, não recebi nenhuma crítica negativa, pelo contrário, foram só elogios e incentivos. Mas ontem, me dei conta do viés dessa análise. As pessoas que avaliaram  o livro inicialmente enxergam a alimentação e a saúde da mesma maneira que eu, mas outros colegas têm uma visão diferente.

Por exemplo, ao criticar o fato de a receita de Yakissoba levar lámen,  o Milk shake de banana levar sorvete e de o Guacamole ser acompanhado de salgadinho de milho, percebo o quanto o olhar das colegas está voltado apenas para a composição nutricional das preparações. Todas estas receitas estão dentro da seção do livro chamada Viagem Culinária. Nesta seção, tento mostrar que a culinária pode ser mais que uma receita, ela pode ser a oportunidade para estudar a cultura, a história e outras características de um povo.

Além disso, colocar a criança em contato com os diferentes alimentos (afinal, nessas receitas também temos cenoura, repolho, brócolis, abacate, tomate, cebola, banana, etc) auxilia na familiarização dos novos sabores e contribui para que elas os aceitem e ampliem a variedade alimentar consumida. Quando estamos trabalhando com crianças, a dificuldade de experimentar é um grande desafio e evidências científicas mostram que incluir alimentos conhecidos (sem neutralizar o sabor do alimento novo) pode auxiliar a criança reduzir seu medo de prová-lo e favorecer sua aceitação. Portanto, incluir um “miojo” na receita de yakissoba cheia de legumes ou sugerir que o guacamole seja consumido com salgadinho podem sim trazer bastante benefícios à alimentação da criança.

Mas fazer algumas crianças experimentarem um alimento não é nada fácil, nem mesmo cozinhando. Uma das estratégias que eu usava quando ministrava aulas de culinária era sugerir que elas provassem a preparação antes de colocar o sal e o açúcar (sim, as receitas do livro levam sal e açúcar!). Eu costumava pedir que elas avaliassem se estava suficientemente doce ou salgado e desta maneira, sem a pressão de “tem que comer porque faz bem à saúde”, muitas delas provavam, prestavam atenção, conheciam novos sabores e, quando necessário, acrescentavam um pouco mais de açúcar ou sal.

Uma das colegas que me escreveu também me sugeriu que o yakissoba levasse macarrão comum e o milk shake fosse feito com banana congelada no lugar de sorvete. Concordo que essas mudanças poderiam até melhorar a composição nutricional das preparações, mas certamente eu estaria contribuindo para a destruição da cultura alimentar. Yakissoba é feito com lámen e Milk shake é feito com sorvete! No livro também tem receita de macarrão com legumes e leite com banana, mas aí são outras receitas….

É importante frisar  que a proposta deste livro não é usar a culinária para alterar a composição nutricional de preparações. Seu principal objetivo é incentivar que as crianças cozinhem! Cozinhar com as crianças faz com que elas se familiarizem com os alimentos e mais, ensinar uma criança a cozinhar contribui para que ela se empodere e seja um indivíduo menos dependente de comida ultra processada para se alimentar.

Minhas colegas também disseram que entendem que a alimentação saudável pode incluir açúcar e alimentos processados de forma equilibrada, mas consideram desnecessário usar estes ingredientes, principalmente em um livro feito por uma nutricionista. Esta crítica me levou a refletir sobre a formação (ou a precária formação) dos nutricionistas, que só consideram necessário os alimentos que atendam as necessidades fisiológicas, esquecendo do  seu papel como fonte de prazer, símbolo cultural, elemento de festividade, etc. Mas infelizmente, ou melhor, felizmente, a comida é muito mais do que um pacote de nutrientes.

Isso me faz lembrar de outra crítica que recebi: a presença da receita de Crumble de maçã no livro pelo seu alto conteúdo de manteiga. Eu não sei qual a origem do Crumble, mas eu conheci esta delícia quando morei na França, na França onde as pessoas dão muito ao valor ao prazer de comer e à culinária, na França onde as pessoas comem, sem culpa, muita gordura saturada sob a forma de manteiga e de deliciosos queijos, e na mesma França onde existem muito menos casos de obesidade, de doenças cardiovasculares e de transtornos alimentares do que no Brasil.

Por fim, uma das últimas críticas que recebi foi que as receitas do livro são básicas e pouco inovadoras. Sim, as receitas do livro são básicas – embora salada de legumes ao curry e lassi de manga, pratos indianos que estão no livro, p.ex, não me pareçam assim tão básicos, mas são receitas de comida de verdade, de comida que se encontra na casa da avó, no restaurante da esquina ou em um bistrô em Paris. As receitas do livro não levam chia, couve, óleo de cártamo, nem usam tâmara no lugar de açúcar. Elas levam frutas, verduras, óleo, azeite, massa de pastel industrializada, lámen, pêssego em calda, chocolate, brócolis, abobrinha, manteiga, sal e também açúcar. Portanto, se você considera que a presença de alguns desses alimentos nas receitas do Lugar de Criança é na Cozinha não contribui para que as crianças comam melhor, não compre este livro! Mas se você consegue entender a proposta e ficou morrendo de vontade de experimentar o Crumble de maçã (rsrs), o botão de compra está te esperando :)

Abraços, Malu Petty

  • Paula

    Malu! Falando primeiro como mãe, que vive no mundo real, digo que suas receitas são perfeitas do jeito que são. Não dá pra incentivar uma criança a comer e a cozinhar se a gente tem que sair por aí em lojas especializadas correndo atrás de ingredientes que definitivamente não fazem parte do nosso dia a dia. Olha que eu me considero fora da média pois tenho o privilégio de preparar todas as refeições da casa, faço muitas verduras, saladas, um feijão enriquecido com tomate e cenoura. De vez em quando até vario, saio do arroz branco e faço um arroz integral ou 7 cereais, mas juro que não sei como encaixar chia e linhaça na minha rotina.
    Seu livro é para o mundo real, possível, com alimentos nutritivos e que podem ser gostosos sim, por que não? Comer um bom brigadeiro de vez em quando não faz mal nenhum ao meu filho! E na convivência com os amigos, em festas, ele sempre vai ser exposto a uma variedade de alimentos e bebidas que não vou poder controlar. Mas vou poder guia-lo e orienta-lo. Refrigerante, por exemplo, até hoje ele não toma, aliás, não tomamos, não consumimos em casa.
    Na minha opinião, se a criança tem uma dieta equilibrada e saudável, ela não vai precisar tomar um milk shake de banana. Ela vai poder tomar um bom milk shake com sorvete de verdade, até porque, cá entre nós, milk shake de banana ninguém merece né, hahahahahaha!!!! Chama isso de vitamina com leite que é mais honesto.
    Agora falando como sua paciente que perdeu peso – e não recuperou! – digo pra quem quiser ouvir que com você aprendi a me alimentar muito melhor, sem deixar em nenhum momento o prazer de estar à mesa. Não passei por privações, não deixei de celebrar festas com os amigos, não deixei nada gostoso de lado. Muita gente duvidou e acredito que pra muitos isso não dê certo. Tem gente que precisa de remédios, restrições, cortar determinados alimentos. Para eles existem colegas seus que trabalham dessa forma.
    Eu não quero isso isso pro meu filho. Quero que ele possa sim, fazer aquela receita deliciosa de petit gateau, ou aquela de ovo de páscoa, e saborea-las sem se preocupar.
    E foi com você também que ele começou a provar mais frutas e a comer salada de entrada. Você é o máximo Malu!!!

  • http://maede2.com.br/ Laura Carvalho

    Eu amo todas as suas receitas, e meus filhos também! <3

  • Adriana Corpo

    Sempre vai ter um ou outro que vai criticar.Na verdade, foi vc quem escreveu e não a pessoa.Se fosse o contrário,ela não gostaria da critica…
    Será muito difícil,uma criança não ter contato com o açúcar, não comê-lo e não querer experimentar…assim como outros alimentos.
    É bem pela falta de contato com alguns alimentos uqe as crianças não sabem nem o que comem e não sabem de onde vem o leite…as vezes,nem iamginam que vem da vaca…(oi?)
    Por isso,desencana e curta seu trabalho e seus louros!!Parabéns!

  • Karina Ernsen

    tem gente só lendo o título

  • Bianca Iuliano

    Parabéns e obrigada pelo livro! De Nutri, para Nutri. Com amor, nutrientes e muito sabor e cultura!!! 😀

  • Norma Lucia Petty

    Parabéns , o livro esta muito bonito . C/ toda certeza Yasmin irá amar !

  • Érica Chiquetto

    Parabéns pela iniciativa!!! Sou nutricionista e concordo com seu ponto de vista…você soube colocar muito bem suas palavras.

  • Kayla Lucas Dalla Costa

    Boa tarde Malu! Adorei seu post! Sou nutricionista também e super concordo com seu ponto de vista! Acho muito ‘chata’ essa ‘bitolação’ por alimentos estritamente saudáveis. Principalmente em se tratando de crianças. Boa sorte com seu projeto!!

  • Gilda Marins

    Parabéns pela iniciativa! Infelizmente atualmente em nosso meio profissional falta uma visão um pouco mais ampla do alimento e da alimentação. Comer é muito mais que composição nutricional. É cultura, social, memória afetiva, construção de saber, entre outras coisas. Ao nos restringirmos ao AÇÚCAR, GORDURA E PROTEÍNAS, empobrecemos não apenas a nossa alimentação mas também a nossa alma. Boa sorte em seu projeto, trabalho com alimentação escolar, culinárias e educação nutricional e sinto muita falta de receitas que incluam de verdade as crianças dessa faixa etária. Vou correndo procurar o seu livro!!!!